quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Curriculum Vitae
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Menina Amanhã de Manhã
Felicidade de existir. E é só isso mesmo, só de existir. Felicidade boba, de quase nada. Como no Uruguai, eu e Keka tomando vinho e nos empanturrando de doce de leite - muito mais eu do que ela, verdade. E eu tirando foto de tudo quanto era canto! A felicidade de andarmos pelas ruas de Montevideo, a chuva fina, um frio de lascar. A gente andando sem rumo, seguindo o coração. Trabalhávamos das nove as três, o resto do dia andávamos sem um destino definido, rindo e conversando. Se estava frio demais ou se batia a fome, a gente parava em algum lugar aquecido, comia, tomava uma coca e seguia. Pegava um ônibus, depois saltava e andava um pouco mais. Isso foi em agosto. Ela me arrastou, como fazem as amigas de verdade. E eu conhecí o Rio da Prata."Menina, amanhã de manhã quando a gente acordar quero te dizer que a felicidade
vai desabar sobre os homens, vai...Na hora ninguém escapa, de baixo da cama
ninguém se esconde e a felicidade vai desabar sobre os homens...Menina, ela mete
medo menina, ela fecha a roda menina, não tem saída de cima, de banda ou de
lado..."
Canto em Qualquer Canto(Ná Ozzetti/Itamar Assumpção)Vim cantar sobre essa terraAntes de mais nada, avisoTrago facão, paixão cruaE bons rocks no arquivoTem gente que pira e berraEu já canto, pio e silvoSe fosse minha essa ruaO pé de ypê tava vivoPro topo daquela serraVamos nós dois, vídeo e livrosVou ficar na minha e suaIsso é mais que bom motivoGorjearei pela terraPara dar e ter alívioGorjeando eu fico nuaEntre o choro e o risoPintassilga, pomba, melroaÁguia lá do paraísoPassarim, mundo da luaQuando não trino, não sirvoCaso a bela com a feraCanto porque é precisoPorque esta vida é árduaPra não perder o juízo
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Um instante

Aqui me tenho
Como não me
conheço
nem me
quis
sem começo
nem fim
aqui me
tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente
Ferreira Gullar
E DELE TAMBÉM:
"Eu vou escrevendo, não planejo nem livro, nem a vida. A minha vida é um improviso. Nunca planejei fazer nada do que fiz. Na poesia, então, isso é total, eu não controlo. É o espanto da vida, dos momentos, que me faz escrever. Se não acontece nada, se nada me espanta, eu não escrevo."
Do caderno "Prosa e Verso" em 20 de dezembro de 2008.
Gosto tanto do jeito como ele escreve! Acho apurado, sensível, sutil e escancarado, tudo ao mesmo tempo. Lí sua entrevista no "O Globo" do último sábado e sentí saudades de um livro seu que eu tinha mas que sumiu no trabalho. Era uma edição especial, feita pelo Unibanco. Ganhei da minha amiga Vânia, gerente de alguma coisa que nunca soube...Nos conhecemos numa formação que fazíamos, em psicoterapia reichiana. Um dia ela me trouxe a edição do Gullar e disse: é a sua cara. Adorei. Coloquei na mesinha de centro, era enfeite interativo. Fotos de São Luis em P&B, poemas, escritos diversos, a sua história. Achei que todos os poetas precisavam voltar para aquela cidade.
Foi lá que descobrí o canto do sabiá, numa das varandas da casa do meu pai. Era uma varanda isolada, lateral. Duas redes voltadas pro jardim. Eu chegava lá pela janela do quarto - andar era melhor pelos caminhos não convencionais. Entrar e sair pelas janelas, chegar na casa dos amigos pelos muros, brincar de boneca ou de polícia-e-ladrão nos galhos das goiabeiras. Ver o mundo era melhor lá de cima.
Foi também em São Luis que descobrí a saudade - não de pai e mãe, que essa eu já conhecia bem: não podendo tê-los juntos, ficava sempre faltando um pedaço. O que descobrí foi saudade de amigo, das confidências, das aventuras. Saudade da quentura de um pedaço do quintal que ficava sempre ao sol, da goiabeira perto da garagem, do banho naquele mar escuro cor de rio e da chuva torrencial de quase todos os dias. Banho de chuva é magistral no Maranhão. De lá eu trouxe meu amor, o primeiro. Ele tinha 15 anos e uma vez me deu a mão, ajudando-me a sair da piscina. Me apaixonei. Namorei, beijei, fiquei moça e fiz 13 anos, tudo assim no mesmo dia! Depois tive uma espinha tão grande que passei uma semana em casa, irreconhecível.
Quando vim-me embora, tinha uma trilha sonora da saudade: Canção do Exílio de Gonçalves Dias, Sabiá do Chico e Canção da América do Milton e Fernando Brant. Não tinha iPod, MP3, 4 ou 15...mas a gente se virava...rsrsrs...Não tinha internet, site Vagalume! A gente sentava ao lado da vitrola, ia repetindo a música dezenas de vezes e "tirava" a letra. Valia a pena. Acho que chorei uma vida ali naquele aeroporto - dessa vez, não dava prá parar o avião...Mas voltei muitas vezes àquela cidade. Muitas vezes reví aquele quintal, a rua da minha casa, os amigos, o amor. Nem por isso a saudade acabou. Acho que a gente não sabe viver sem saudade. Mas talvez seja exatamente isso: talvez a saudade seja um tipo específico de desejo - e não seja conveniente que acabe.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Não é pouca coisa ser humano

Quando a segunda América chegou, eu já era grande. Ao menos grande o suficiente para compreender a dimensão daquele continente e daquele encontro. Era 1987, eu havia passado para a universidade e me deparei com uma das imagens mais importantes de toda a minha história. Essa imagem ficou gravada em mim, em todos os sentidos, e tornou-se uma espécie de arquétipo, marcando para sempre a minha forma de ser mulher. Eu tinha dezoito anos.E eu me apaixonei por contar histórias. Já apaixonada por uma América que cedo me havia mostrado que, sendo todos iguais éramos também todos diferentes – ou que, diferentes, éramos sobretudo iguais no que temos de ser humano – fui ser professora. De História, claro!
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Arrumando as gavetas

Ando sentindo uma saudade enorme do sol... Antes, estava com saudade da neve. Neve que não conheço, neve que nunca ví. E estava muito animada de ir vê-la neste janeiro. Agora que não vou, bateu uma saudade do verão carioca: praia cedinho, pele morena, crianças brincando de água o dia inteiro, banho de chuveirão, saladinha "semente" no almoço, soneca, rede e tapioca no calçadão a noite!!! Meus vestidos soltos, meus sapatos pénochão... Eu poderia viver nessa rotina por séculos e não cansaria de me assombrar com suas delícias!
Mas parece que o sol anda discreto, mesmo até reticente. Chove faz tanto tempo que eu mesma já perdí a conta. Só o que sei é que a grama nova do jardim anda empapuçada de sua alegria de grama nova - uma alegria de querer água o tempo todo, o que é justo em se tratando de gramas. Entretanto eu, que grama não sou - embora simpatize com a causa - estou a ficar de saco muito cheio de mofar dentro desta casinha pequena que tenho. As crianças, para minha surpresa, estão num climinha "nem te ligo farinha de trigo!", uma beleza. O quarto virou uma brincadeira gigantesca: há bonecas morando nas gavetas da cômoda(cada gaveta um andar, claro), na escrivaninha, nas prateleiras todas. Ainda cometeram a ousadia de me informar que melhor não limpar a casa não, que é prá eu não correr o risco de desmanchar as tais casinhas. Avisaram: não arrume! Que amanhã vamos brincar denovo.
Daí que uma das minhas mais adoradas manias - faxina - nem ela eu posso exercer nestes tempos chuvosos...Estava outro dia conversando com um amigo, falávamos sobre nossos próximos relacionamentos, sobre o tipo de gente que gostaríamos de encontrar. Lembro que expressei com muita energia meu desejo de encontrar um homem que conseguisse entender o quanto meu amo fazer faxina. Mais: que não apenas entendesse o meu amor pelo processo de limpar as coisas de casa, como admirasse meu empenho e, principalmente, meu prazer. Ele teria que compreender também uma prticularidade: eu amo fazer faxina de madrugada. Casa silenciosa, eu - formiguinha - redefinindo os padrões de limpeza do lar! Ahh, eu estou a pedir muito, não? rsrsrsrs
Mas ainda na faxina: estou longe de ser uma pessoa com compulsão pela limpeza, ou pela ordem. Esta última muito menos, quem me dera! Sou do signo de escorpião com um estrondoso ascendente em gêmeos - coisa que só descobrí ao 38 anos e que me deixou estupefata. Passei a vida inteira acreditando que tinha ascendente em câncer. Me encontrei nessa coisa geminiana de ser mais de um sendo, a bem da verdade, coisa alguma, totalmente "tudo ao mesmo tempo agora". É a minha cara. Tivesse eu descoberto mais cedo este detalhe quase sórdido, teria uma vida mais tranquila. Suponho. Mais sossegada, ao menos, pois compreenderia que toda aquela doideira de ser 350 mil coisas diferentes, de abrir 250 mil caminhos, seguir 2 e concluir meio, bem, não era só pq eu sou doida de pedra. É da minha natureza, sabe? Natureza geminiana! Ah, isso de astrologia salva a gente de tanta coisa! E a mania de mudar de casa? Mania uma vírgula! Natureza. Tão simples isso.
Não consigo concluir a história da faxina. É que quando estou limpando o chão, trocndo a roupa de cama, lavando o quintal...parece que me arrumo toda por dentro. Se coloco o iPod, então! Canto e danço e arrumo, é uma beleza! Exorcizo sabe Deus quantas maluquices! Revejo atitudes, repenso opiniões, viajo nas relações que estabeleço com uns e outros, é praticamente uma terapia. Faxina terapêutica. Lembro da minha madrasta, mulher que respeito muito. Quando eu era pequena, ainda uma garotinha, fazia à ela tantas perguntas que a deixava tonta. Ela era doce, calma, silenciosa, um tanto melancólica, o que me afligia um pouco. Lembro de ter-lhe perguntado muitas vezes o pq de tanto silêncio, no que ela me respondia calmamente " estou arrumando minhas gavetas". Demorei algum tempo para compreender que eram gavetas internas. Mas sempre gostei da expressão.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
A Primeira América II
Havia ainda a professora de Português. Aquela regra quase mística de que quem não tem bom desempenho em matemática é pq leva jeito para a área de humanas, ao menos comigo, de nada valia. Eu era um fracasso nos dois extremos daquele arco-íris de matérias. E era sofrível no resto todo. A professora também não ajudava, era uma megera de carteirinha. Me causava uma revolta visceral o fato de ela se referir a mim como "nº2". Eu tinha 12 anos e um terrível senso de justiça. Aliás, um senso de justiça incabível para aquele corpo. Não admitia que me chamassem por um número! Eu era uma pessoa, uma criança! E, é claro, eu caí na asneira de expressar esta minha indignação com todas as letras. É de se imaginar o que se seguiu : se ela era o tipo de professor que chama o aluno pelo número...bom, ela não gostou muito daquela aluna nova cujo nome não conseguia lembrar...aquela! Aquela carioca com seu sotaque arrastado, chiado, besta de doer! Quem pensa que é aquela pirralha?! Foi por aí a reação da "tia"...rsrs...e a minha reputação só crescendo - ou decaindo, de acordo com quem olhava... e de onde.
Mas tinha a Geografia e o tal dever de casa. Papai foi tão gentil, acho que queria ajudar a filha inapta a superar aqueles primeiros meses em terra quase estrangeira, sem mãe, sem avó, com uma irmãzinha CDF e mandona. Acho que meu fracasso escolar o estava deixando tão culpado! Cheguei na escola totalmente coberta pelo meu manto de boa aluna. Aquele era o meu dia, eu tinha certeza. Aula da tal senhora, tiro da pastinha - sim, pq ele me ensinou a colocar o mapa em pastinha prá chegar na escola todo inteirinho, nota 10! - o meu mapa hipercolorido, radiante, perfeito. A criançada babava.
Ok: durou pouco. A professora sacou de longe que aquela obra-rpima da cartografia não tinha sido produzida por aquelas hesitantes mãozinhas em formação. Não me lembro ao certo, não tenho registro direito...não sei se ela foi cuidadosa ou se foi perversa. Minha lembrança infantil é de que foi justa. Hoje, revendo a história, me questiono sobre sua forma de conduzir a situação. Como professora, certamente não agiria da mesma forma. Entretanto, na minha memória de criança, aquele foi um momento de superação, de resgate da minha honra - não me perguntem qual honra, por favor! O fato é que ela me perguntou, assim na frente da classe todinha, se eu realmente tinha feito aquele mapa. Lembro perfeitamente de minha hesitação, do longo tempo que passei em silêncio, sem emitir palavra. Finalmente admití que a autoria do trabalho era do Sr. meu pai, o Comandante. Tive uma semana para reapresentar o mapa. Caprichei muito. Aprendí as técnicas do papai, ousei ir adiante e desenvolví minhas próprias técnicas. Nunca mais abandonei a Geografia. Amei minha América. Desenhei-a tantas vezes que a sabia todinha.
Foi naquela época que comecei a a amar os mapas. Viajava nos Atlas escolares(ah, se houvesse Google Earth naquele tempo!!!), revisitava minha cidade, meu estado...decodificava as curvas do litoral do Rio de Janeiro e sentia o cheiro do mar de Cabo-Frio onde costumávamos passar as férias de verão. Passava por cidades desconhecidas e supunha a vida das pessoas que também não conhecia. Seguia com os dedos a forma da minha América e ia parar no sul dos Estados Unidos. Alí buscava freneticamente encontrar o ponto exato em que ficava a cidadezinha em que nascí. Imaginava-a. Sonhava em entender como e pq eu tinha um outro lar, um outro país para chamar de meu. Naquele momento eu era Senhora das Américas...ao menos das minhas!
A Primeira América
Encontramos uma casa enorme, um quarto só prá gente (na casa dos nossos avós, no Rio, dividíamos a cama com eles: eu e minha avó no chão, minha irmã e meu avô na cama - era maravilhoso, pois eu dormia agarradinha com a avó mais carinhosa e cheirosa do mundo! Mas, veja bem: uma cama só prá mim, um quarto em que eu poderia fechar a porta!!! Vamos combinar? Era o máximo!) e uma madrasta que sabia conversar, era carinhosa e parecia gostar da gente. Prá nossa felicidade completa encontramos ainda uma vila militar perfeita, apinhada de crianças de todos os cantos do Brasil, uma piscina sendo construida no nosso quintal, muros maravilhosos para serem escalados, goiabeiras e um quartel gigantesco, com pista de treinamento e tudo mais na frente da nossa casa. Só prá completar, naquela terra era verão o ano inteiro!!! Resultado: era rua de demanhã até a noite, amigos até não mais caber e uma alegria que mais infantil era impossível!
São Luis era o retrato fiel de tudo o que eu havia desejado para mim mesma: calor, amigos e uma família que me queria. São Luis era mundo afora prá mim. Era uma realidade tão distante da minha de carioca da gema, de menina de apartamento. São Luis foi a minha primeira impressão de América. Minha primeira experiência de diversidade, de multiculturas e de plasticidade humana: criança era tudo igual. E a gente sabia brincar!
Mas 1981 foi também o ano em que a minha infância acabou. E isso começou no avião, no final das tais férias perfeitas, no retorno para casa. Eu não fui. Quando a aeronave - não é assim que se diz? rsrs - começou a texear para a decolagem, eu me levantei. A aeromoça(hoje promovida a comissária de bordo, mas no cargo interino de nossa babá até chegar ao Rio de Janeiro)chegou junto, me mandou sentar. Não sentei. Eu queria ver o comandante. Ela ficou meio apavorada, coitada. Que criança era aquela que queria falar com o comendante naquela altura da situação??? Ela tentou me "dar uma volta", mas eu gritei bem alto e, na ameaça do escândalo, apareceu o comandante. Eu só queria ficar com meu pai. Queria a quela infância prolongada, aquelas férias perfeitas mereciam ser vividas por mais tempo. Pq a minha felicidade tinha hora marcada para acabar? Será que dava prá parar o avião? Eu quero ficar com o meu pai...sussurrei.
E foi assim que eu fiquei em São Luis do Maranhão. E foi assim que, sem suspeitar, comecei a crescer. Tomei minha primeira decisão séria e solitária: eu não voltei das férias. Era criança, mas não era boba. Sabia perfeitamente o custo da decisão que tomara na relação - já tão tumultuada - com minha mãe. Estava disposta a pagar.