sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Avulsos e dispersos

Encontrei isso hoje cedo, arrumando papéis, pastas, procurando documentos e fazendo a infinita faxina de ano novo. Não tinha data, nem título... apenas essas palavras em sua incompletude. Lá vão elas:

"Há tempos não escrevo. Há muito tempo não escrevo 'à mão'. Demorei mas aprendi a escrever no computador. Houve uma época - no início da minha juventude - em que escrever era compulsivo ( ou compulsório?? Rs). O que me fazia viver constantemente à flor da pele - já que, para escrever, preciso sentir, não me basta pensar.

Fazia muito tempo também que eu não chorava. Algo em torno de uns quatro meses... rs... uma eternidade!!!!!!

Ontem caí no choro. As fichas têm caído aos quilos e litros ultimamente e não me faltam motivos para me debulhar. Acontece que ando tão ocupada com milhares de miudezas cotidianas, infinitas, importantes e etecétera e tal... que vou acumulando as dores. Arquivo-as em ordem cronológica, mas elas se reorganizam por assunto/intensidade.

Na pressa do meu cotidiano descobri a função 'standby' do coração. Piloto automático. Mas a caixa preta permanece registrando cada atividade. A caixa preta é uma descoberta nova pra mim, é um "sentido de observação crítica não impulsiva". Observo todo mundo. E registro impiedosamente cada movimento. Analiso, mas não reajo. Percebo, concluo, sinto. Registro sem expressar..."

Gurvich

" Los ojos al servicio del alma: ver, sentir e comprender, con el alma através de los sentidos."

"La libertad en la arte implica aventura."

José Gurvich

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Frase

"O medo não pensa, conclui."

Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A dona do pedaço

É madrugada e minha casa está sossegada e silenciosa. Chove agora e fui ao quintal para receber algumas gotinhas deliciosas. Eu e o gato - meio apavorado com a minha ousadia:" vamos tomar um banho de chuva, garoto?" Minhas crianças estão fora, pois estamos - todos - de férias. Inclusive uns dos outros! São apenas 15 dias por ano, mas são intensos. E são importantes pra mim: ocupo toda a casa, todos os quartos, todas as camas. Durmo cada dia num canto; não faço compras de supermercado; não cozinho - mas mantenho a casa numa organização irreal para os dias em que é habitada por nossa família. Durmo tardérrimo, e acordo ainda mais tarde. Escuto música alto; ligo as três tv's em diferentes canais; tomo banhos quentes e demorados; falo sozinha e rio de mim mesma. Fico na internet até tarde; converso com os amigos que moram longe e cujos horários não são compatíveis com os meus. Tomo coca-cola no gargalo da garrafa; almoço e janto torradas com cream cheese Philadelphia e geléia Queensberry de morango. Fico horas em silêncio. Resolvo jantar fora sozinha tarde da noite - e vou! Almoço com amigas. Sinto uma liberdade tardia e adolescente. Feliz! Quase cômica. Na verdade, poética: sou livre na doce prisão da maternidade... Lembro da Adélia Prado: "Não quero faca, nem queijo. Quero a fome!"


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Acaso

Roubado, completamente parafraseado da Adriana Calcanhoto:

E se o acaso estiver inspirado
E emaranhar por capricho, tempo e espaço
Cruzando as nossas linhas soltas num laço?

sábado, 26 de novembro de 2011

Das delicadezas de Deus...

Sim, é quase dezembro. E sempre que Dezembro - assim com maiúscula fica grave como lhe cabe - vem chegando, meu coração vai sofrendo algumas transformações. Amolece como manteiga ao sol quente. Derrete. Fica estúpido. Burro. Impossível. Acredita, que um conjunto de convenções estabelecidas por determinada cultura na forma de um calendário com ciclo de 12 meses faz algum sentido... além do prático. E se emociona com Dezembros...

Meu coração chora pela beleza dos meses todinhos do ano. Mas se emociona mais com Dezembro. Agosto, por exemplo, ele acha que é cinza. Vá explicar-lhe que meses não possuem cores! Não, não. Agosto é cinza. E pertence aos vendavais. Sempre. Mesmo que as mudanças climáticas já não permitam a fidedignidade de minhas lembranças infantis. Setembro, pro meu coração, é promessa. Talvez porque traga a primavera... Mesmo que só neste Hemisfério. Meu coração deve ter hemisférios também... Junho guarda dias especialmente apropriados para atravessar a Baía de Guanabara de barca. Dias de uma claridade especial e de uma brisa muito fresca, que dá grande beleza aos sonhos. Em junho, sonhamos. Assim é meu coração: parcial, teimoso e negligente com as verdades impostas.

Então, sempre que Dezembro vem chegando, começo a pensar em como será que, desta vez, vai se comportar meu coração. Foi assim que, nesta última semana, comecei a sentir vontade de rezar. Pois é. Eu sou muito crente. Mas não num Deus "extremo". Acredito, cada vez mais, que Deus é o nosso desejo de boas coisas, seja para nós mesmos ou para os outros... Não tenho uma religião definida, não pratico rituais pré estabelecidos... Ao contrário: crio meus próprios rituais. Rezar, pra mim, é, em geral, nadar. Estranho? Muito prazer: Adriana.

Todos os dias, quando mergulho na solidão azul da piscina, eu rezo. No silêncio das minhas braçadas, agradeço ao meu criador por cada coisinha do meu dia. Escuto o barulho das bolhas de ar que saem dos meus pulmões ofegantes e me sinto a mais grata das criaturas. Saio da água de alma e corpo leves. Aliás, essa é uma das minhas concepções de água benta... (Isso me lembra as terças-feiras em que minha avó trabalhava na barraquinha de Santo Antônio, na Igreja Porciúncula de Sant'Ana, e do quanto eu amava comer os pãezinhos bentos!!!!!!).

Voltemos à vontade de rezar. Desta vez, era uma vontade diferente: vontade de Igreja. Achei que precisava arrumar um tempinho extra esta semana para ficar sozinha numa igreja. Quieta, eu e Deus num papo mais formal. Eu com minha listinha de agradecimentos e dois pedidos: que eu saiba cuidar de quem anda precisando de mim e que Jesus tenha a delicadeza de conduzir alguns assuntos meus, porque ando sem condições de decidir certos rumos e, não sei se por sabedoria ou obediência, gosto de acreditar que se eu não dou conta, Ele faz isso pra mim.

Mas nada de arrumar o tal tempinho de Igreja... A semana passou e eu passei com ela. Daí ontem, sexta feira, fui nadar no último horário. Cheguei tão tarde que fui a última a acabar e, mais uma vez, lá estava eu sozinha na piscina. Céu escuro, chuvinha fina, eu, Deus e água benta por todos os lados!

Pedi desculpas por minha eterna pressa, por minha falta de tempo fictícia, rezei o de sempre... E o que me vem à cabeça???!!! Alberto Caeiro e seu Jesus Menino!!!! Cheguei em casa e vim direto para a internet. Não poderia haver melhor oração pra mim naquele momento!

... E chorei todos os dezembros do mundo!!!!


PS : outras concepções de água benta: chuva, mar, rio e lágrima. Como amo correr e o suór salgado que escorre pelo meu rosto também vem se tornando motivo de oração, tenho pensado em inclui-lo nesta lista.


O GUARDADOR DE REBANHOS

VI

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se não nos mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ter ir quando acabemos!



Alberto Caeiro(Fernando Pessoa)




















terça-feira, 8 de novembro de 2011

O peito, o sorriso e a arma.

Faz muito tempo que não escrevo. Criei esse blog num momento muito difícil da minha vida: a Lara havia acabado de sair de uma longa e grave internação no CTI e eu precisava refletir. Muito sozinha naquele momento, me voltei para as palavras, sempre companheiras. Seja lendo ou escrevendo - muitas vezes cantando desafinadamente minhas músicas prediletas - foi sempre assim que exorcizei minhas mazelas mais íntimas. Escrevi meio que para não explodir, embora minha sensação, naquela época, fosse de implosão. O mundo desmoronava numa velocidade frenética e eu, absolutamente observadora, acompanhava em câmera lenta.Eu estava dentro e fora dos acontecimentos. Olhava em perspectiva, mas absolutamente imersa naquele caos hospitalar. Vida e morte eram a mesma coisa, uma mera linha de continuidade ligava-as.Havia um descompasso e escrever era uma das formas de tentar reencontrar um ritmo factível entre mim e o mundo.

Engraçado reler o Blog e perceber que nunca toquei nesse assunto. Passei raspando quando escrevi o "Curriculum Vitae". Que, aliás, tirei daqui. Achei que me expunha demais. Ando pensando em lapidá-lo em alguns pontos... E pensei em chamá-lo de "Currículo Poético". Talvez o Blog todo devesse ser lapidado... Mas perderia a originalidade do momento em que cada coisa foi escrita. Até os erros de digitação e ortografia têm a sua história... Freud talvez os chamasse de atos falhos, mas gosto da denominação de um antigo terapeuta meu, o Frenando: atos francos. Acho uma grande sacação chamá-los assim.

Ok, preciso explicar porque voltei, certo? Não foi pensado. Foi dando uma vontade.Talvez culpa do Nilson que andou lendo isso aqui e me fez voltar meu olhar esquecido para essas bandas... Mas há uma força maior do que a vontade aqui hoje. Na última quinta feira tive um encontro com a fisioterapeuta da Lara, a Márcia. E ela me fez a pergunta mais difícil dos últimos tempos:" você está pronta para abrir mão do sofrimento que a Lara passou no hospital? Você está pronta para deixar isso passar?" Ora bolas, que pergunta absurda! Já passou! A Lara tá ótima, linda, forte, bem. Mas e eu? Eu deixei aquilo para trás? Bom, Márcia. Não sei se estou pronta para me desagarrar de tanta dor, mas quero estar. Serve?

Olhando-me com toda clareza que me é permitida - por mim mesma e pelo mundo que me rodeia - me surpreendo com o estandarte que a gente faz da dor. A gente carrega a dor como um marco heroico na nossa vida! Não que ela não seja, claro que é. Mas e a felicidade, as alegrias cotidianas? Por que não as carregamos no mesmo patamar?

Não, não respondo mesmo. Só pergunto. E ainda roubo um trecho magistral do Jorge Larrosa que escreveu um livro com um nome tão bonito que só o título já é poesia suficiente, "Pedagogia Profana".Um adendo: eu sou apaixonada por certos títulos de livros, músicas e poemas. Acho mágicos. "Confesso que Vivi", do Neruda. Caramba! Diz tudo, dizendo tão pouquinho! Há outros, mas preciso voltar ao Larrosa, senão o mosaico fica grande demais rs:


" Conta-te a ti mesmo a tua própria história. E queima-a logo que a tenhas escrito. Não sejas nunca de tal forma que não possas ser também de outra maneira. Recorda-te do teu futuro e caminha até a tua infância. e não perguntes quem és àquele que sabe a resposta, porque a resposta poderia matar a intensidade da pergunta e o que se agita nessa intensidade. Sê tu mesmo a pergunta."


Quanto à minha dor, vou mastigando esse fim na tentativa de metabolizá-la definitivamente. Não quero dar a impressão errada. Não me tornei uma pessoa mais triste ou soturna, resmungona ou pessimista. Muito pelo contrário! A possibilidade da morte da minha filha, as dores todas de estarmos cercadas de muitas mortes - físicas e metafóricas - tudo isso mudou radicalmente a minha vida. E mudou para melhor. Sou infinitamente mais feliz hoje do que era antes de tudo isso. Além do mais, ganhei uma intimidade com a morte que me permite olhar a vida com uma esperança e um otimismo que considero crônicos de tão persistentes. Hoje acho que tudo sempre pode dar certo. Pior: acho que está tudo certo. Vá entender!

Mas ainda assim carrego aquele tempo como um troféu. Acho que merecia, senão um troféu, uma medalha pela mãe/mulher que fui naqueles meses. Mas se isso ainda me define, também me aprisiona. Limita e tolhe. Minha referência, por mais positiva que seja, é ainda a dor. Ou a fantasiosa ideia de que, de algum modo mágico, eu venci a morte. Não venci. Vivi. Vivo. E é só isso mesmo.

Em homenagem á minha dor - E PARA RIR UM POUQUINHO DELA TAMBÉM -, em homenagem a todas as dores de que não conseguimos abrir mão, mas que deveriam voar espaço afora, bailando no universo para que se reciclem em outros sons e tons, posto uma música bárbara na voz da Zélia Duncan. Obviamente que o título diz tudo. : )

DOR ELEGANTE


Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante...

Carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa
um milhão de dólares
ou coisa que os valha...

Ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser
a minha última obra!