Faz muito tempo que não escrevo. Criei esse blog num momento muito difícil da minha vida: a Lara havia acabado de sair de uma longa e grave internação no CTI e eu precisava refletir. Muito sozinha naquele momento, me voltei para as palavras, sempre companheiras. Seja lendo ou escrevendo - muitas vezes cantando desafinadamente minhas músicas prediletas - foi sempre assim que exorcizei minhas mazelas mais íntimas. Escrevi meio que para não explodir, embora minha sensação, naquela época, fosse de implosão. O mundo desmoronava numa velocidade frenética e eu, absolutamente observadora, acompanhava em câmera lenta.Eu estava dentro e fora dos acontecimentos. Olhava em perspectiva, mas absolutamente imersa naquele caos hospitalar. Vida e morte eram a mesma coisa, uma mera linha de continuidade ligava-as.Havia um descompasso e escrever era uma das formas de tentar reencontrar um ritmo factível entre mim e o mundo.
Engraçado reler o Blog e perceber que nunca toquei nesse assunto. Passei raspando quando escrevi o "Curriculum Vitae". Que, aliás, tirei daqui. Achei que me expunha demais. Ando pensando em lapidá-lo em alguns pontos... E pensei em chamá-lo de "Currículo Poético". Talvez o Blog todo devesse ser lapidado... Mas perderia a originalidade do momento em que cada coisa foi escrita. Até os erros de digitação e ortografia têm a sua história... Freud talvez os chamasse de atos falhos, mas gosto da denominação de um antigo terapeuta meu, o Frenando: atos francos. Acho uma grande sacação chamá-los assim.
Ok, preciso explicar porque voltei, certo? Não foi pensado. Foi dando uma vontade.Talvez culpa do Nilson que andou lendo isso aqui e me fez voltar meu olhar esquecido para essas bandas... Mas há uma força maior do que a vontade aqui hoje. Na última quinta feira tive um encontro com a fisioterapeuta da Lara, a Márcia. E ela me fez a pergunta mais difícil dos últimos tempos:" você está pronta para abrir mão do sofrimento que a Lara passou no hospital? Você está pronta para deixar isso passar?" Ora bolas, que pergunta absurda! Já passou! A Lara tá ótima, linda, forte, bem. Mas e eu? Eu deixei aquilo para trás? Bom, Márcia. Não sei se estou pronta para me desagarrar de tanta dor, mas quero estar. Serve?
Olhando-me com toda clareza que me é permitida - por mim mesma e pelo mundo que me rodeia - me surpreendo com o estandarte que a gente faz da dor. A gente carrega a dor como um marco heroico na nossa vida! Não que ela não seja, claro que é. Mas e a felicidade, as alegrias cotidianas? Por que não as carregamos no mesmo patamar?
Não, não respondo mesmo. Só pergunto. E ainda roubo um trecho magistral do Jorge Larrosa que escreveu um livro com um nome tão bonito que só o título já é poesia suficiente, "Pedagogia Profana".Um adendo: eu sou apaixonada por certos títulos de livros, músicas e poemas. Acho mágicos. "Confesso que Vivi", do Neruda. Caramba! Diz tudo, dizendo tão pouquinho! Há outros, mas preciso voltar ao Larrosa, senão o mosaico fica grande demais rs:
" Conta-te a ti mesmo a tua própria história. E queima-a logo que a tenhas escrito. Não sejas nunca de tal forma que não possas ser também de outra maneira. Recorda-te do teu futuro e caminha até a tua infância. e não perguntes quem és àquele que sabe a resposta, porque a resposta poderia matar a intensidade da pergunta e o que se agita nessa intensidade. Sê tu mesmo a pergunta."
Quanto à minha dor, vou mastigando esse fim na tentativa de metabolizá-la definitivamente. Não quero dar a impressão errada. Não me tornei uma pessoa mais triste ou soturna, resmungona ou pessimista. Muito pelo contrário! A possibilidade da morte da minha filha, as dores todas de estarmos cercadas de muitas mortes - físicas e metafóricas - tudo isso mudou radicalmente a minha vida. E mudou para melhor. Sou infinitamente mais feliz hoje do que era antes de tudo isso. Além do mais, ganhei uma intimidade com a morte que me permite olhar a vida com uma esperança e um otimismo que considero crônicos de tão persistentes. Hoje acho que tudo sempre pode dar certo. Pior: acho que está tudo certo. Vá entender!
Mas ainda assim carrego aquele tempo como um troféu. Acho que merecia, senão um troféu, uma medalha pela mãe/mulher que fui naqueles meses. Mas se isso ainda me define, também me aprisiona. Limita e tolhe. Minha referência, por mais positiva que seja, é ainda a dor. Ou a fantasiosa ideia de que, de algum modo mágico, eu venci a morte. Não venci. Vivi. Vivo. E é só isso mesmo.
Em homenagem á minha dor - E PARA RIR UM POUQUINHO DELA TAMBÉM -, em homenagem a todas as dores de que não conseguimos abrir mão, mas que deveriam voar espaço afora, bailando no universo para que se reciclem em outros sons e tons, posto uma música bárbara na voz da Zélia Duncan. Obviamente que o título diz tudo. : )
DOR ELEGANTE
Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante...
Carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa
um milhão de dólares
ou coisa que os valha...
Ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser
a minha última obra!