quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Curriculum Vitae

Identidade: Nasci filha menina onde me queriam homem. Decidi desde muito cedo que seria sempre diferente do que me quisessem. Americana, tratei de aprender a falar francês. Nunca aprendi a dançar, mas nado três mil metros em pouco mais de uma hora. Tenho quarenta anos e medo de avião, elevador e dentista. Sei nadar os quatro estilos, dirijo melhor do que qualquer pessoa que conheço. Não tenho carteira de motorista ou de identidade. Hoje, que me identifique, só tenho dois passaportes. Houve época em que nem isso. Sou capaz de trabalhar duro durante muitas horas seguidas, seja trabalho intelectual ou físico. Formação acadêmica: Já corri 10 Km. Outro dia derrubei parte de uma árvore a machadadas só porque estava tirando todo o sol do meu quintal. Meus três filhos são fortes. Tive parto na água e parto sem dor. Nunca perdi um filho, de dentro da minha barriga criança só sai pronta. Mas teve filho de que abdiquei antes de deixar que crescesse em meu ventre. Já trabalhei 16 horas por dia com prazer. Já detestei trabalhar. Não sei fazer coisas de que não gosto. Adoro bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro. Minha família mora em lugares diferentes, espalhada pelo mundo. Comecei cinco faculdades, mas tenho dificuldade em terminar as coisas quando acho que já sei – daquilo – o que eu precisava para a vida. Sonhei em montar uma escola num sítio do meu avô. Queria ensinar geografia subindo morros. Experiência profissional: Gosto de música, de fotografia, poesia, romance, cinema e macarrão. Vinho tinto eu prefiro Trio da Concha y Toro; verde: Adega da Ponte da Barca. Wísque e café gosto, mas é só do cheiro. Um lembra o meu avô, o outro, meu pai. Odeio cigarro. Tenho vício de praia, coca-cola e de pensar muito. Sempre acho que preciso perder algum peso. Durmo de pijama e meia. Adoro comprar roupa e acho muito difícil encontrar sapatos que me agradem. Prefiro morar em casa do que em apartamento. Casei-me duas vezes. Sofri muitas outras. Sou vitima de um otimismo impossível de controlar e me divirto com isso. Minha felicidade depende de sol. Gosto de ficar sozinha algumas horas por dia. Tenho dias de casa cheia e alegre, onde cozinho para um batalhão, outros de uma mudez infinita em que me calo em mim. Todos esses dias são perfeitos, nenhum deles me dói. Adoro as séries da TV americana, jornal nacional e desenhos infantis. Leio livros para crianças com a mesma alegria – talvez com mais... - com que leio aqueles de gente grande. Sou muito desagradável se estou zangada e me zango, muitas vezes, por quase nada. Nasci sob o signo de escorpião. Comecei a aprender inglês quase aos quarenta e achei maravilhoso. Gosto de andar de ônibus, de ficar olhando as coisas, casas e gentes passando pela janela. Imagino vidas, histórias, saudades. Empresas em que trabalhou anteriormente: Sofro de melancolia: sinto falta do passado e saudades do futuro. Acredito que não sabemos viver sem saudade e que ela é uma espécie de desejo meio fora do tempo. Tenho TPM de vez em quando e descobri, faz pouco tempo, que podar árvores pode ajudar. Aliás, depois que podei a árvore passei a achar que posso fazer quase tudo. Podar é poder! Fico linda quando grávida e sinto prazer em parir. Amamentei meus filhos por longos períodos de tempo. Não tenho religião. Acho difícil seguir o mesmo caminho por muito tempo. Fujo de compromissos. Amo dar aulas, mas acho que perdi o jeito. Já tive emprego bom, ruim e desemprego. Nunca tive muita grana. Aprendi a engolir sapos. Já me humilhei por amor e por medo. Talvez tenha sido sempre por medo... Não sei lidar com dinheiro nem mandar nas pessoas. Sou muito solidária. Solitária também. Traí e fui traída. Tive e causei dor de cotovelo. Obedeço demais só que nem sempre é de verdade. Já menti muitas vezes. Há coisas de que me arrependi, sobretudo daquelas que deixei de fazer. Sinto-me velha desde os 22 anos. Um dia tomei um porre de vinho do Porto e Valpolicella Bolla. Gosto de Zélia Duncan, Cartola, Clarisse Lispector e Zeca Baleiro. Fiz terapia por alguns anos. Meu ascendente é gêmeos. Prefiro fazer faxina de madrugada quando a casa respira sossego. Tenho dois cachorros: Manu e Zarouk. Sou vizinha de um dos meus ex-maridos e somos incrivelmente amigos. Tem muita gente que não entende. Não tenho mais carro. Conheci o Brasil de ônibus e mochila nas costas e sinto saudades desse tempo. Sonho em fazer isso pela América. Tenho um blog onde quase não escrevo, mas queria. Amei um homem que não sabia amar e que – quando soube – eu não entendi. Sou tão egoísta às vezes! Tenho o coração machucado, mas acredito que ainda dê tempo de consertar. Sou dona de medos e coragens infinitas. Pretensões salariais: Tenho envelhecido ultimamente. Fui criada por meus avós. Tenho fé na humanidade. Sinto raiva de injustiça e hipocrisia. Detesto me sentir impotente. Não é pouca coisa ser humano. A guerra me assusta porque rouba o futuro. Me compadeço da dor dos outros e da minha própria. Não acho isso ruim. Queria ter sido médica. Ainda acho que vou trabalhar na ONU. Salvei a vida da minha filha mais nova por duas vezes. Quase a perdi. Às vezes deixo meus filhos dormirem na minha cama. Isso me dá sossego. Mudei muito. Pela minha boca saem palavras de Ferreira Gullar: “... a estrela mente o mar sofisma. De fato, o homem está preso á vida e precisa viver, o homem tem fome e precisa comer, o homem tem filhos e precisa criá-los. Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.”

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Menina Amanhã de Manhã

Hoje ela chegou assim, de surpresa.
Eu estava distraida, fazia o almoço.
Só me dei conta da felicidade quando me peguei cismando, entorpecida, picando as nozes para a salada, bebendo uma taça de vinho tinto e escutando as Chicas. Veio uma felicidade assim, toda simples, sutil. As meninas brincando no quintal, a casa seguindo seu ritmo normal. Ela nem ligou que já não é mais Natal. Veio e se instalou no meu peito sem deixar espaço prá mais nada. Suave. Cheia de graça, como na música do Tom Zé :

"Menina, amanhã de manhã quando a gente acordar quero te dizer que a felicidade
vai desabar sobre os homens, vai...Na hora ninguém escapa, de baixo da cama
ninguém se esconde e a felicidade vai desabar sobre os homens...Menina, ela mete
medo menina, ela fecha a roda menina, não tem saída de cima, de banda ou de
lado..."

Felicidade de existir. E é só isso mesmo, só de existir. Felicidade boba, de quase nada. Como no Uruguai, eu e Keka tomando vinho e nos empanturrando de doce de leite - muito mais eu do que ela, verdade. E eu tirando foto de tudo quanto era canto! A felicidade de andarmos pelas ruas de Montevideo, a chuva fina, um frio de lascar. A gente andando sem rumo, seguindo o coração. Trabalhávamos das nove as três, o resto do dia andávamos sem um destino definido, rindo e conversando. Se estava frio demais ou se batia a fome, a gente parava em algum lugar aquecido, comia, tomava uma coca e seguia. Pegava um ônibus, depois saltava e andava um pouco mais. Isso foi em agosto. Ela me arrastou, como fazem as amigas de verdade. E eu conhecí o Rio da Prata.
Há uns dezoito anos, passamos dois meses no Pará. Éramos duas molecas totalmente pancadas, com mochilas nas costas e a coragem de sair por esse mundo. De ônibus. Rio, Belo Horizonte, Brasília...asfalto. Daí por diante, Tocantins: transamazônica, barro por todo canto, chuva, resgate. Chegamos pelo rio, num barco cheio de redes penduradas. O dia amanhecia em Belém. Conhecemos um albino, professor no interior do mundo. Elias seu nome. A gente sonhando em ser professora. Andando pela rua, no "Peba", topamos com uns garotos pulando de uma ponte, umas mulheres lavando roupa ao fundo. Pulamos também. De roupa mesmo, pq não? Adoramos os banheiros: a louça era no chão. Tipo um bidê(isso existia antigamente!), só que no chão mesmo. Tinha até o lugar certinho para colocar os pés. Muito higiênico, com a ventagem de que a gente fazia xixi em pé - sonho de 9.5 entre 10 mulheres! A comida era simples: queijo quente e coca-cola. Daí nasceu uma regra: tudo o que é bom é uma derivação dessa mistura. O princípio do pão com queijo. No caminho para Marabá, os garimpeiros - com suas peixeiras na cintura - tomaram conta da gente, uns gentlemans.
A música do Tom Zé foi ela quem me deu. Na voz da Mônica Salmaso. Com a diferença de alguns meses, tivemos nossas filhas mais novas. Estava em casa amamentando e chega o certeiro. Um cd e uma cartinha: "me sinto como se a felicidade fosse se esparramar sobre o mundo! "
Nem sempre eu sou boa em lidar com essa coisa de felicidade. Muitas vezes me surpreendo duvidando, desconfiada com a fartura. Não sei se é vício ou neurose - são diferentes? De uns tempos prá cá ando numa dualidade que não me cabe: feliz das coisas mais simples, sobressaltada de que acabem numa piscadela. Não é exatamente confortável. Dilema que só se resolve com poesia - há quem prefira a terapia, vá lá.
Lá vai:
Canto em Qualquer Canto
(Ná Ozzetti/Itamar Assumpção)
Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto, pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de ypê tava vivo
Pro topo daquela serra
Vamos nós dois, vídeo e livros
Vou ficar na minha e sua
Isso é mais que bom motivo
Gorjearei pela terra
Para dar e ter alívio
Gorjeando eu fico nua
Entre o choro e o riso
Pintassilga, pomba, melroa
Águia lá do paraíso
Passarim, mundo da lua
Quando não trino, não sirvo
Caso a bela com a fera
Canto porque é preciso
Porque esta vida é árdua
Pra não perder o juízo

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Um instante




Aqui me tenho

Como não me
conheço
nem me
quis
sem começo
nem fim
aqui me
tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente


Ferreira Gullar



E DELE TAMBÉM:


"Eu vou escrevendo, não planejo nem livro, nem a vida. A minha vida é um improviso. Nunca planejei fazer nada do que fiz. Na poesia, então, isso é total, eu não controlo. É o espanto da vida, dos momentos, que me faz escrever. Se não acontece nada, se nada me espanta, eu não escrevo."


Do caderno "Prosa e Verso" em 20 de dezembro de 2008.


Gosto tanto do jeito como ele escreve! Acho apurado, sensível, sutil e escancarado, tudo ao mesmo tempo. Lí sua entrevista no "O Globo" do último sábado e sentí saudades de um livro seu que eu tinha mas que sumiu no trabalho. Era uma edição especial, feita pelo Unibanco. Ganhei da minha amiga Vânia, gerente de alguma coisa que nunca soube...Nos conhecemos numa formação que fazíamos, em psicoterapia reichiana. Um dia ela me trouxe a edição do Gullar e disse: é a sua cara. Adorei. Coloquei na mesinha de centro, era enfeite interativo. Fotos de São Luis em P&B, poemas, escritos diversos, a sua história. Achei que todos os poetas precisavam voltar para aquela cidade.

Foi lá que descobrí o canto do sabiá, numa das varandas da casa do meu pai. Era uma varanda isolada, lateral. Duas redes voltadas pro jardim. Eu chegava lá pela janela do quarto - andar era melhor pelos caminhos não convencionais. Entrar e sair pelas janelas, chegar na casa dos amigos pelos muros, brincar de boneca ou de polícia-e-ladrão nos galhos das goiabeiras. Ver o mundo era melhor lá de cima.

Foi também em São Luis que descobrí a saudade - não de pai e mãe, que essa eu já conhecia bem: não podendo tê-los juntos, ficava sempre faltando um pedaço. O que descobrí foi saudade de amigo, das confidências, das aventuras. Saudade da quentura de um pedaço do quintal que ficava sempre ao sol, da goiabeira perto da garagem, do banho naquele mar escuro cor de rio e da chuva torrencial de quase todos os dias. Banho de chuva é magistral no Maranhão. De lá eu trouxe meu amor, o primeiro. Ele tinha 15 anos e uma vez me deu a mão, ajudando-me a sair da piscina. Me apaixonei. Namorei, beijei, fiquei moça e fiz 13 anos, tudo assim no mesmo dia! Depois tive uma espinha tão grande que passei uma semana em casa, irreconhecível.

Quando vim-me embora, tinha uma trilha sonora da saudade: Canção do Exílio de Gonçalves Dias, Sabiá do Chico e Canção da América do Milton e Fernando Brant. Não tinha iPod, MP3, 4 ou 15...mas a gente se virava...rsrsrs...Não tinha internet, site Vagalume! A gente sentava ao lado da vitrola, ia repetindo a música dezenas de vezes e "tirava" a letra. Valia a pena. Acho que chorei uma vida ali naquele aeroporto - dessa vez, não dava prá parar o avião...Mas voltei muitas vezes àquela cidade. Muitas vezes reví aquele quintal, a rua da minha casa, os amigos, o amor. Nem por isso a saudade acabou. Acho que a gente não sabe viver sem saudade. Mas talvez seja exatamente isso: talvez a saudade seja um tipo específico de desejo - e não seja conveniente que acabe.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Não é pouca coisa ser humano



Quando a segunda América chegou, eu já era grande. Ao menos grande o suficiente para compreender a dimensão daquele continente e daquele encontro. Era 1987, eu havia passado para a universidade e me deparei com uma das imagens mais importantes de toda a minha história. Essa imagem ficou gravada em mim, em todos os sentidos, e tornou-se uma espécie de arquétipo, marcando para sempre a minha forma de ser mulher. Eu tinha dezoito anos.
Encontrei-a como um pôster, na livraria da PUC. Apesar do esforço que tenho feito nos últimos dias, não me recordo de absolutamente nada do que estava escrito. Sei apenas que era uma guerrilheira nicaragüense. O sorriso, o seio amamentando e a arma. Esse conjunto nunca desapareceu da minha memória. Que conjunto é esse de perfeição do feminino?!
Passava muito do meu tempo ainda adolescente imaginando-a. Seus dias na guerrilha, as batalhas. Momentos de tensão, escondida na selva tropical. O bebê no acampamento, seus pensamentos voando entre rajadas, granadas e bombas. Os pés na terra, o coração no filho. O coração na luta por um país diferente, por uma outra América. A cabeça no futuro: eu me sacrifico pelo que virá. E o que virá será um tempo de justiça, de paz, de prosperidade. Meu sacrifício é por meu filho, pelos filhos de minhas companheiras. Pelos filhos da América. Assim imaginava seu discurso. Sentia seu medo e também sua coragem. Na minha incongruência de ser em formação, apaixonei-me pela humanidade daquela imagem. Comprei o pôster. Colei-o na parede do meu quarto cor-de-rosa, sobre a minha cama cor-de-rosa. Revendo aquela parede na distância da memória, percebo o quanto de transformação estava por vir...
E percebo mais: percebo que minha raiz de ser humano já estava presente desde muito antes daquele encontro e não consigo entender direito o que nos faz, de fato, ser quem somos. Diante de tantos encontros possíveis naquele pátio, naquele estande de livraria, pq o meu foi justamente com aquela guerrilheira? Que fatos tão precoces podem ir marcando a história de cada um de nós de modo a que nos tornemos quem somos apesar e com tudo o que vivemos, de onde viemos e etc? Lembro-me perfeitamente de minhas primeiras reflexões, eu tinha com certeza oito anos e fazia minha primeira viagem de avião totalmente solitária. Vinha de Belém para o Rio, rever meus avós e passar com eles as festas de fim de ano. Era um avião muito pequeno, tinha 14 lugares. Era da FAB e - me lembro tão bem - não tinha banheiro! Pulava como as charretes da pracinha de Teresópolis e teria sido assustador não fosse a minha total ignorância a respeito da lei da gravidade. Mas minhas reflexões se deram em outro contexto: na noite de Natal, na varanda da casa da minha avó. Eu olhava o céu escuro e estrelado daquele dezembro e esperava ansiosamente por alguma coisa - e não era o Papai Noel. Esperava por alguma coisa que não veio e foi alí que eu entendí que a minha solidão era só minha. O que pode parecer redundante foi uma constatação fundamental para mim. Ao contrário do que possa parecer de triste, foi um momento rico e profundo. Minha solidão de ser humano me dava uma enorme liberdade. Eu não tinha nada. E tinha também o mundo todo.
Muito mais tarde, numa reunião na escola do meu filho mais velho, reencontrei essa sensação dita de uma forma muito mais linda e novamente me apaixonei por ser humano. Era uma senhora de cabelos bem brancos, óculos com aro escuro, de casco de tartaruga, talvez. Ela dizia coisas lindas sobre a formação dos nossos filhos. De tudo o que ela falou ficou uma mensagem: quando a gente conta história que inventa da própria cabeça, a criança tem que imaginar o cenário, os personagens, as imagens todas do contado. Acontece o mesmo quando contamos histórias de livros que só têm letras, sem desenhos. Toda a riqueza de imagens fica por conta de quem ouve. E isso, esse criar imagens, contextos, cores e formas que só existiam dentro delas, permitiria às crianças o desenvolvimento de um rico mundo interior. Era a imaginação se exercitando, expandindo-se. E no futuro – ela disse – essa seria uma capacidade muito importante: permitiria que aquela criança tivesse um mundo interior tão rico que ela não teria dificuldades – tão típicas hoje em dia – em lidar com a própria solidão. Não é que não fosse se sentir só. Mas é que sentir-se só não precisaria ser um problema.
E eu me apaixonei por contar histórias. Já apaixonada por uma América que cedo me havia mostrado que, sendo todos iguais éramos também todos diferentes – ou que, diferentes, éramos sobretudo iguais no que temos de ser humano – fui ser professora. De História, claro!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Arrumando as gavetas






Ando sentindo uma saudade enorme do sol... Antes, estava com saudade da neve. Neve que não conheço, neve que nunca ví. E estava muito animada de ir vê-la neste janeiro. Agora que não vou, bateu uma saudade do verão carioca: praia cedinho, pele morena, crianças brincando de água o dia inteiro, banho de chuveirão, saladinha "semente" no almoço, soneca, rede e tapioca no calçadão a noite!!! Meus vestidos soltos, meus sapatos pénochão... Eu poderia viver nessa rotina por séculos e não cansaria de me assombrar com suas delícias!

Mas parece que o sol anda discreto, mesmo até reticente. Chove faz tanto tempo que eu mesma já perdí a conta. Só o que sei é que a grama nova do jardim anda empapuçada de sua alegria de grama nova - uma alegria de querer água o tempo todo, o que é justo em se tratando de gramas. Entretanto eu, que grama não sou - embora simpatize com a causa - estou a ficar de saco muito cheio de mofar dentro desta casinha pequena que tenho. As crianças, para minha surpresa, estão num climinha "nem te ligo farinha de trigo!", uma beleza. O quarto virou uma brincadeira gigantesca: há bonecas morando nas gavetas da cômoda(cada gaveta um andar, claro), na escrivaninha, nas prateleiras todas. Ainda cometeram a ousadia de me informar que melhor não limpar a casa não, que é prá eu não correr o risco de desmanchar as tais casinhas. Avisaram: não arrume! Que amanhã vamos brincar denovo.

Daí que uma das minhas mais adoradas manias - faxina - nem ela eu posso exercer nestes tempos chuvosos...Estava outro dia conversando com um amigo, falávamos sobre nossos próximos relacionamentos, sobre o tipo de gente que gostaríamos de encontrar. Lembro que expressei com muita energia meu desejo de encontrar um homem que conseguisse entender o quanto meu amo fazer faxina. Mais: que não apenas entendesse o meu amor pelo processo de limpar as coisas de casa, como admirasse meu empenho e, principalmente, meu prazer. Ele teria que compreender também uma prticularidade: eu amo fazer faxina de madrugada. Casa silenciosa, eu - formiguinha - redefinindo os padrões de limpeza do lar! Ahh, eu estou a pedir muito, não? rsrsrsrs

Mas ainda na faxina: estou longe de ser uma pessoa com compulsão pela limpeza, ou pela ordem. Esta última muito menos, quem me dera! Sou do signo de escorpião com um estrondoso ascendente em gêmeos - coisa que só descobrí ao 38 anos e que me deixou estupefata. Passei a vida inteira acreditando que tinha ascendente em câncer. Me encontrei nessa coisa geminiana de ser mais de um sendo, a bem da verdade, coisa alguma, totalmente "tudo ao mesmo tempo agora". É a minha cara. Tivesse eu descoberto mais cedo este detalhe quase sórdido, teria uma vida mais tranquila. Suponho. Mais sossegada, ao menos, pois compreenderia que toda aquela doideira de ser 350 mil coisas diferentes, de abrir 250 mil caminhos, seguir 2 e concluir meio, bem, não era só pq eu sou doida de pedra. É da minha natureza, sabe? Natureza geminiana! Ah, isso de astrologia salva a gente de tanta coisa! E a mania de mudar de casa? Mania uma vírgula! Natureza. Tão simples isso.

Não consigo concluir a história da faxina. É que quando estou limpando o chão, trocndo a roupa de cama, lavando o quintal...parece que me arrumo toda por dentro. Se coloco o iPod, então! Canto e danço e arrumo, é uma beleza! Exorcizo sabe Deus quantas maluquices! Revejo atitudes, repenso opiniões, viajo nas relações que estabeleço com uns e outros, é praticamente uma terapia. Faxina terapêutica. Lembro da minha madrasta, mulher que respeito muito. Quando eu era pequena, ainda uma garotinha, fazia à ela tantas perguntas que a deixava tonta. Ela era doce, calma, silenciosa, um tanto melancólica, o que me afligia um pouco. Lembro de ter-lhe perguntado muitas vezes o pq de tanto silêncio, no que ela me respondia calmamente " estou arrumando minhas gavetas". Demorei algum tempo para compreender que eram gavetas internas. Mas sempre gostei da expressão.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Primeira América II

Foi também em São Luis que primeiro compreendí a América. Digo no sentido didático - quase material. Era aula de Geografia. Sexta série. O dever de casa era fazer um mapa. Eu tinha muita dificuldade na escola. Desde sempre era tudo muito difícil. Matemática era grego arcaico, talvez marcianez, quem sabe? Prá completar meu desespero, o professor me olhava de um jeito apavorante. Seu olhar atravessava meu corpo e ia bater justo na minha ignorância: eu me sentia pelada, nua, completamente desprotegida diante daqueles olhos. Ele sabia que eu não sabia. Ele sabia exata e perfeitamente TUDO o que eu não sabia. E eu me esforçava tanto! Não para aprender matemática - que nada! Mas para parecer uma boa aluna! Eu tinha os gestos de uma boa aluna, os cadernos de uma boa aluna, eu tinha todo um perfil de boa aluna...mas eu era uma farsa - ao menos aquela "eu" era uma farsa - e aquele professor de matemática sabia disso. E eu o odiava por isso.
Havia ainda a professora de Português. Aquela regra quase mística de que quem não tem bom desempenho em matemática é pq leva jeito para a área de humanas, ao menos comigo, de nada valia. Eu era um fracasso nos dois extremos daquele arco-íris de matérias. E era sofrível no resto todo. A professora também não ajudava, era uma megera de carteirinha. Me causava uma revolta visceral o fato de ela se referir a mim como "nº2". Eu tinha 12 anos e um terrível senso de justiça. Aliás, um senso de justiça incabível para aquele corpo. Não admitia que me chamassem por um número! Eu era uma pessoa, uma criança! E, é claro, eu caí na asneira de expressar esta minha indignação com todas as letras. É de se imaginar o que se seguiu : se ela era o tipo de professor que chama o aluno pelo número...bom, ela não gostou muito daquela aluna nova cujo nome não conseguia lembrar...aquela! Aquela carioca com seu sotaque arrastado, chiado, besta de doer! Quem pensa que é aquela pirralha?! Foi por aí a reação da "tia"...rsrs...e a minha reputação só crescendo - ou decaindo, de acordo com quem olhava... e de onde.
Mas tinha a Geografia e o tal dever de casa. Papai foi tão gentil, acho que queria ajudar a filha inapta a superar aqueles primeiros meses em terra quase estrangeira, sem mãe, sem avó, com uma irmãzinha CDF e mandona. Acho que meu fracasso escolar o estava deixando tão culpado! Cheguei na escola totalmente coberta pelo meu manto de boa aluna. Aquele era o meu dia, eu tinha certeza. Aula da tal senhora, tiro da pastinha - sim, pq ele me ensinou a colocar o mapa em pastinha prá chegar na escola todo inteirinho, nota 10! - o meu mapa hipercolorido, radiante, perfeito. A criançada babava.
Ok: durou pouco. A professora sacou de longe que aquela obra-rpima da cartografia não tinha sido produzida por aquelas hesitantes mãozinhas em formação. Não me lembro ao certo, não tenho registro direito...não sei se ela foi cuidadosa ou se foi perversa. Minha lembrança infantil é de que foi justa. Hoje, revendo a história, me questiono sobre sua forma de conduzir a situação. Como professora, certamente não agiria da mesma forma. Entretanto, na minha memória de criança, aquele foi um momento de superação, de resgate da minha honra - não me perguntem qual honra, por favor! O fato é que ela me perguntou, assim na frente da classe todinha, se eu realmente tinha feito aquele mapa. Lembro perfeitamente de minha hesitação, do longo tempo que passei em silêncio, sem emitir palavra. Finalmente admití que a autoria do trabalho era do Sr. meu pai, o Comandante. Tive uma semana para reapresentar o mapa. Caprichei muito. Aprendí as técnicas do papai, ousei ir adiante e desenvolví minhas próprias técnicas. Nunca mais abandonei a Geografia. Amei minha América. Desenhei-a tantas vezes que a sabia todinha.
Foi naquela época que comecei a a amar os mapas. Viajava nos Atlas escolares(ah, se houvesse Google Earth naquele tempo!!!), revisitava minha cidade, meu estado...decodificava as curvas do litoral do Rio de Janeiro e sentia o cheiro do mar de Cabo-Frio onde costumávamos passar as férias de verão. Passava por cidades desconhecidas e supunha a vida das pessoas que também não conhecia. Seguia com os dedos a forma da minha América e ia parar no sul dos Estados Unidos. Alí buscava freneticamente encontrar o ponto exato em que ficava a cidadezinha em que nascí. Imaginava-a. Sonhava em entender como e pq eu tinha um outro lar, um outro país para chamar de meu. Naquele momento eu era Senhora das Américas...ao menos das minhas!

A Primeira América

Eu tinha 12 anos. Estudava numa escola protestante em São Luis. Era 1981, um dos melhores anos de toda a minha vida! O simples fato de eu estar naquela cidade já era, em sí, uma verdadeira loucura: meu pai havia sido transferido para comandar o 24º Batalhão de Caçadores, era Tenente-Coronel do exército, tinha 48 anos e estava prestes a se aposentar...Acho que aquele era o auge de sua carreira militar, na medida em que - com certeza - não planejava se tornar um General, e eu sabia disso. Eu tinha ido, como sempre, passar as férias de verão com eles (ele havia se casado alguns meses antes). Saí do Rio de Janeiro toda arrumadinha, com roupa nova, cabelo cortado e uma frasqueira na mão. Na bagagem: chicletes e revistinhas. Minha irmã de 9 anos ia comigo. A aeromoça tomaria conta de nós.
Encontramos uma casa enorme, um quarto só prá gente (na casa dos nossos avós, no Rio, dividíamos a cama com eles: eu e minha avó no chão, minha irmã e meu avô na cama - era maravilhoso, pois eu dormia agarradinha com a avó mais carinhosa e cheirosa do mundo! Mas, veja bem: uma cama só prá mim, um quarto em que eu poderia fechar a porta!!! Vamos combinar? Era o máximo!) e uma madrasta que sabia conversar, era carinhosa e parecia gostar da gente. Prá nossa felicidade completa encontramos ainda uma vila militar perfeita, apinhada de crianças de todos os cantos do Brasil, uma piscina sendo construida no nosso quintal, muros maravilhosos para serem escalados, goiabeiras e um quartel gigantesco, com pista de treinamento e tudo mais na frente da nossa casa. Só prá completar, naquela terra era verão o ano inteiro!!! Resultado: era rua de demanhã até a noite, amigos até não mais caber e uma alegria que mais infantil era impossível!
São Luis era o retrato fiel de tudo o que eu havia desejado para mim mesma: calor, amigos e uma família que me queria. São Luis era mundo afora prá mim. Era uma realidade tão distante da minha de carioca da gema, de menina de apartamento. São Luis foi a minha primeira impressão de América. Minha primeira experiência de diversidade, de multiculturas e de plasticidade humana: criança era tudo igual. E a gente sabia brincar!
Mas 1981 foi também o ano em que a minha infância acabou. E isso começou no avião, no final das tais férias perfeitas, no retorno para casa. Eu não fui. Quando a aeronave - não é assim que se diz? rsrs - começou a texear para a decolagem, eu me levantei. A aeromoça(hoje promovida a comissária de bordo, mas no cargo interino de nossa babá até chegar ao Rio de Janeiro)chegou junto, me mandou sentar. Não sentei. Eu queria ver o comandante. Ela ficou meio apavorada, coitada. Que criança era aquela que queria falar com o comendante naquela altura da situação??? Ela tentou me "dar uma volta", mas eu gritei bem alto e, na ameaça do escândalo, apareceu o comandante. Eu só queria ficar com meu pai. Queria a quela infância prolongada, aquelas férias perfeitas mereciam ser vividas por mais tempo. Pq a minha felicidade tinha hora marcada para acabar? Será que dava prá parar o avião? Eu quero ficar com o meu pai...sussurrei.
E foi assim que eu fiquei em São Luis do Maranhão. E foi assim que, sem suspeitar, comecei a crescer. Tomei minha primeira decisão séria e solitária: eu não voltei das férias. Era criança, mas não era boba. Sabia perfeitamente o custo da decisão que tomara na relação - já tão tumultuada - com minha mãe. Estava disposta a pagar.